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Documentários

“O Riso dos Outros” e a nossa pobre opinião sobre piada



17.11.2016


Quem nunca viu alguém fazendo piada sobre alguém por ser gordo, magro, baixo, alto, feio, bonito, gay, mulher? Tantos outros atributos que fazem de nós “minorias” sociais e permitem que sejamos alvos de piadas. Quem nunca viu alguém chamando um negro de macaco? Ou relacionando sexo à imagem feminina? Ou até mesmo falando sobre a dificuldade que uma pessoa gorda tem em ser aceita na sociedade?

Isso não é piada. Isso é machismo, preconceito e racismo. 

O documentário “O Riso dos Outros”, produzido e dirigido por Pedro Arantes é um tiro na relação de comédia e sociedade. É um tiro que abre nossos olhos para uma realidade que bate a nossa porta todos os dias da nossa vida. 

Durante os 52 minutos do média-metragem, humoristas como Danilo Gentili, Rafinha Bastos, Marcela Leal, a cartunista Laerte e o deputado federal Jean Wyllys foram alguns dos convidados para participarem da reflexão a cerca do machismo enraizado na sociedade que estamos lutando para viver.

Casas de comédia de todo o Brasil (quiçá do mundo) perpetuam piadas misóginas e preconceituosas como formato de zombação. No documentário, os comediantes afirmam que a estratégia é utilizada por eles para fazer com que as pessoas se identifiquem com as chacotas e realmente se identifiquem com aquilo, pois todo mundo tem a reação de rir quando tocado num assunto que é taxado como tabu.

“Se o humor precisa de uma vítima, façamos a vítima certa, não é? Porque tem tanta gente que merece apanhar. Por que bater nos negros ou nas mulheres, não é? Que já apanharam bastante. Essa é a verdade.” disse André Dahmer, desenhista brasileiro, ao falar sobre machismo e racismo presente no humor.

Eu, Júlia, sempre fiquei me perguntando o porquê desse preconceito pesado colocado em piadas, quando o correto seria rir das coisas que acontecem na vida e são irônicas, não de pessoas, minorias, seus defeitos e qualidades ou suas personalidades. Imagina você crescer ouvindo que é menos que o coleguinha por ser gordo/negro/mulher e quando crescer ver que este preconceito está mascarado de comédia/piada?

Porque zombar de um gênero ou de uma raça? Será que temos motivos para sermos diminuídos perante a sociedade em formato de “show de comédia”? Daí se inicia uma reflexão acerca da visão de mundo que o comediante apresenta.

No caso de Marcela Leal, uma comediante extremamente machista e considerada “a primeira dama do stand-up comedy brasileiro”, penso que pode ser que ela queira conquistar o público por outro meio que não seja do talento que ela tem, ou que ela quer que as pessoas realmente caracterizem ela como “a mulher que faz humor sobre gordas e que acha isso engraçado” ou também como “a comediante que faz humor pra agradar os outros e não pensa em si mesma”. Tem um trecho no documentário em que Marcela fala sobre a vizinha gorda que mora perto da casa dela e que, em um certo dia, ao cruzar com esta mulher, a moça contentou que estava triste por não ter um namorado. A piada neste caso é uma mulher gorda querer ter um namorado, dá pra acreditar?

Será que realmente alguém achou graça disso?

Fica a reflexão sobre este documentário que mexeu com meu senso crítico e balançou meu conceito de “piada”.

Júlia Escrito por:
Júlia